O controle da tecnologia de pagamentos por aproximação em smartphones entrou no centro de uma discussão regulatória no Reino Unido. A Autoridade de Concorrência e Mercados britânica, conhecida pela sigla CMA, abriu em 20 de outubro de 2026 uma consulta sobre propostas que podem facilitar o uso do NFC do iPhone por fintechs e outras empresas digitais.
Em vez de analisar apenas um novo meio de pagamento, a iniciativa trata do acesso à infraestrutura que permite a comunicação sem contato entre o celular e terminais compatíveis. A avaliação pode influenciar a criação de carteiras digitais concorrentes, ferramentas de identificação, bilhetes de transporte e chaves digitais, além de soluções ligadas diretamente a contas bancárias.
Segundo o comunicado oficial da CMA, a autoridade considera que as condições atuais de acesso e as tarifas cobradas pela Apple podem dificultar a entrada ou a expansão de novos produtos no mercado britânico. A proposta, no entanto, ainda não representa uma decisão definitiva.
O que a CMA pretende mudar
A autoridade propõe que a Apple ofereça às empresas acesso aos principais padrões internacionais usados em aplicações contactless. Entre as tecnologias citadas estão o Secure Element, conhecido como SE, e o Host Card Emulation, ou HCE. Esses recursos podem ser utilizados para proteger credenciais e viabilizar experiências de pagamento ou autenticação por aproximação.
Na prática, a discussão envolve permitir que empresas além da própria Apple desenvolvam serviços capazes de interagir com a infraestrutura NFC do iPhone. Isso poderia abrir espaço para aplicativos de pagamento, carteiras digitais e produtos financeiros com funcionamento mais integrado ao cotidiano dos usuários, desde que atendam às exigências técnicas e de segurança aplicáveis.
A CMA também defende que as condições comerciais sejam mais viáveis para empresas menores. A proposta não fixa diretamente um preço obrigatório para o acesso, mas busca evitar que custos ou regras comerciais se tornem uma barreira desproporcional para fintechs e outros concorrentes.
Por que o tema afeta fintechs e usuários
O peso econômico da decisão está relacionado à popularidade dos pagamentos por aproximação no Reino Unido. De acordo com os dados apresentados pela CMA, essa modalidade representou 39% de todos os pagamentos realizados no país em 2025. Mais de 60% dos adultos britânicos também utilizavam uma carteira digital, o que amplia a relevância do sistema controlado pelos fabricantes de dispositivos.
Para as fintechs, ter acesso às funções de aproximação pode significar mais autonomia para oferecer serviços financeiros e digitais dentro do ambiente móvel. Para os usuários, uma eventual ampliação da concorrência pode resultar em mais opções de aplicativos e formas de vincular pagamentos, identificação ou transporte ao celular. Esses possíveis efeitos ainda dependem, porém, do desenho final das regras e da adesão das empresas.
O debate também se conecta ao avanço do open banking. Com maior acesso à tecnologia de aproximação, novos serviços poderiam ser desenvolvidos para realizar pagamentos diretamente a partir de contas bancárias, sem depender exclusivamente de carteiras ou arranjos mantidos pelas plataformas móveis. A consulta não determina que esses produtos serão lançados, mas avalia condições que podem facilitar sua criação.
Medida ainda está em consulta pública
A consulta ficará aberta até 17 de novembro de 2026. Nesse período, empresas, entidades do setor e demais interessados poderão enviar contribuições sobre os efeitos técnicos, comerciais e concorrenciais das propostas. A página institucional da Competition and Markets Authority reúne as informações oficiais relacionadas à atuação da autoridade britânica.
Depois do encerramento, a CMA deverá analisar as manifestações recebidas antes de tomar uma decisão definitiva sobre as medidas. O resultado poderá indicar se a Apple terá de alterar as condições de acesso ao NFC do iPhone e quais salvaguardas serão necessárias para preservar segurança, privacidade e confiabilidade nas transações.
A discussão no Reino Unido acompanha uma questão mais ampla do mercado digital: quando uma plataforma controla uma tecnologia essencial para pagamentos e autenticação, quais limites devem ser aplicados para garantir concorrência? A resposta poderá interessar não apenas às empresas britânicas, mas também a fintechs que acompanham a evolução dos modelos de carteira digital e de pagamentos móveis em diferentes mercados.
