Líder da oposição afirma que acréscimos já passam de R$ 40 milhões e questiona repasse da orla à iniciativa privada; obra do projeto Orla Parque acumula reajustes desde a contratação em 2024
A requalificação da Orla de Boa Viagem, principal intervenção em curso no litoral do Recife, voltou ao centro do debate político. Na sessão plenária da Câmara Municipal na noite de segunda-feira (21), o vereador Felipe Alecrim (Novo) criticou a apresentação de um novo aditivo de R$ 6,2 milhões para as obras e afirmou que, com mais esse acréscimo, o valor gasto pela prefeitura passa em mais de R$ 40 milhões o custo inicialmente previsto. A crítica ganhou repercussão nos dias seguintes e reacendeu a discussão sobre prazos, custos e o futuro modelo de gestão da orla.
O tema interessa diretamente a quem frequenta a praia mais conhecida da capital pernambucana. O projeto prevê a modernização de cerca de oito quilômetros da orla, com novo calçadão, requalificação da ciclovia, iluminação em LED, recuperação de equipamentos esportivos e melhorias de acessibilidade. Enquanto as intervenções avançam por etapas, moradores, comerciantes e turistas convivem com trechos em obra, e o debate sobre quanto o projeto vai custar ao final ganha peso em pleno período eleitoral.
O que disse o vereador na tribuna
Alecrim, apontado como líder da oposição na Casa, disse que o aumento de preço e de prazo não se restringe ao calçadão de Boa Viagem e seria uma marca das obras conduzidas pela gestão do PSB. Para ele, a requalificação da orla segue esse padrão. “É uma obra que parece que nunca terá fim”, afirmou no plenário.
O vereador também criticou o volume de recursos públicos envolvidos e o destino final do equipamento. Segundo ele, trata-se de um valor de mais de R$ 210 milhões do dinheiro do contribuinte recifense aplicado em uma estrutura que depois será entregue à iniciativa privada. A cifra citada pelo parlamentar soma diferentes contratos ligados ao projeto, e não apenas o contrato principal da obra.
No mesmo discurso, Alecrim relacionou o tema ao turismo. Ele argumentou que o visitante desembarca no aeroporto e segue para as praias ou para outras cidades, sem permanecer na capital, e atribuiu parte do problema ao abandono do Centro do Recife. A fala amplia a discussão: a orla é vista como vitrine turística, mas a oposição cobra que os investimentos sejam distribuídos pelo restante da cidade.
Como o custo da obra chegou a este ponto
A trajetória de reajustes ajuda a entender a polêmica. O contrato principal foi firmado em 2024 por R$ 109,8 milhões. Em março de 2026, um terceiro termo aditivo de R$ 11,5 milhões elevou o valor para R$ 146,6 milhões, um aumento de cerca de 33,5% sobre o valor original.
Em julho, veio o quarto ajuste. O contrato principal passou a R$ 150.893.774,17, cerca de R$ 41 milhões acima do orçamento da licitação, com um acréscimo de aproximadamente R$ 4,8 milhões. Dessa vez, o aumento não decorreu de novos serviços, mas do reajuste anual previsto em contrato, com base na variação do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) de 5,84% entre março de 2025 e março de 2026.
Há ainda contratos paralelos. A prefeitura firmou acordos complementares para mobiliário urbano, paisagismo, jardins e reservatórios de água, que não entram no valor do contrato principal. Em julho, também foi homologado um novo contrato de R$ 10 milhões para intervenções no 1º e no 3º Jardins, elevando o investimento público previsto para o projeto a aproximadamente R$ 227 milhões. É essa soma de contratos que alimenta os números citados pela oposição.
Concessão de 25 anos amplia o debate
O ponto mais sensível da crítica está no modelo de gestão escolhido. O projeto Orla Parque prevê a concessão por 25 anos da gestão, operação e manutenção do calçadão à iniciativa privada. Entre os ativos incluídos estão seis pontos históricos de salva-vidas em estilo art déco, 60 quiosques, 21 banheiros públicos e diversos equipamentos esportivos.
O processo já recebeu autorização do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE), o que permite à prefeitura seguir com a licitação que escolherá a empresa responsável. Pelo desenho da concessão, os investimentos obrigatórios da futura concessionária ficam concentrados principalmente no 2º Jardim, enquanto as obras no 1º e no 3º Jardins são pagas integralmente com recursos públicos antes da transferência.
Esse arranjo já vinha sendo questionado por especialistas e observadores de concessões públicas, porque parte relevante das obras é financiada pelo município antes do início da exploração privada. Foi exatamente esse ponto que Alecrim explorou na tribuna ao dizer que o dinheiro público estaria sendo aplicado para, depois, a orla ser repassada a uma empresa.
O que a Prefeitura já justificou e o que falta esclarecer
Nos aditivos anteriores, a gestão municipal apresentou justificativas técnicas. Em nota enviada ao Diario de Pernambuco em junho, a prefeitura afirmou que o acréscimo foi necessário por demandas não previstas integralmente no projeto inicial, como a ampliação da sinalização da Avenida Boa Viagem e a troca de tubulações de drenagem consideradas inadequadas para reaproveitamento durante a execução.
Segundo o município, muitos equipamentos subterrâneos já eram conhecidos, mas a falta de localização precisa obrigou as equipes a fazer verificações em campo e ajustes de projeto, o que afetou os prazos. Na mesma ocasião, a prefeitura informou que cerca de 70% dos trabalhos estavam concluídos. Até a publicação desta reportagem, não foi localizado posicionamento oficial específico sobre o novo aditivo de R$ 6,2 milhões citado pelo vereador.
Para o recifense que frequenta a orla, as perguntas práticas continuam em aberto: qual será a data final de entrega, qual o custo total consolidado de todos os contratos ligados ao projeto e quando a concessão efetivamente começará. As respostas devem aparecer nos próximos atos publicados no Diário Oficial e no andamento da licitação da concessão, que seguirão sob acompanhamento da Câmara e dos órgãos de controle.
Fontes:
- Câmara Municipal do Recife: Felipe Alecrim critica aditivo em obras da Orla de Boa Viagem
- Portal de Prefeitura: Vereador do Recife, Felipe Alecrim, critica novo aditivo na orla de Boa Viagem
- Diario de Pernambuco: Obra da orla de Boa Viagem recebe novo aditivo e custo chega a R$ 146,6 milhões
- Portal de Prefeitura: Obras da orla recebem novo aditivo e custos chegam a R$ 146,6 milhões
- Portal de Prefeitura: Obra da Orla de Boa Viagem acumula quatro aditivos e já custa R$ 151 milhões
- Cardinot: Obra da Orla de Boa Viagem recebe novo aditivo e chega a R$ 150,9 milhões
- Portal de Prefeitura: Prefeitura do Recife firma novo contrato de R$ 10 milhões para a Orla
- Diario de Pernambuco: Orla Parque, entenda o projeto de concessão da orla do Recife
